Existem anos de mudança, meses de transição e dias que nos fazem abrir os olhos; transporto-me para o local onde estava à um ano atrás, tinha encontrado o meu melhor amigo, o melhor ouvinte e a melhor pessoa para passar uma tarde de sol.
Eu soube que o amava desde a primeira vez em que os nossos olhos tocaram, era algo intocável e inimaginável; se existem almas gémeas, nós éramos o protótipo dessa patente. Uma geração que nos diferenciava mas ainda assim tu afastavas todas as minhas teorias complicadas.
Não é que não esteja bem hoje, não é que a companhia não seja a melhor mas as minhas saudades de ti serão eternas.
Tínhamos um vício, um amor por edificar e se tu rapidamente imaginavas a vida ao meu lado hoje eu não sei se mais alguém poderá imaginar; estou feita à tua medida.
Tu apanhaste-me, tiraste-me do chão, fizeste-me voar e responsabilizar-me pelas minhas atitudes; fizeste-me acreditar que era possível amar outra vez e que o somatório de incertezas da vida é que faz dela a equação mais bonita do mundo.
Hoje é tudo muito diferente; fecharam a cortina e eu estou com alguém próximo de mim, da minha imaturidade, dos meus devaneios, do meu stress ainda assim faltas-me tu. É absurdo e injusto pensar assim, mas todas as noites em que fecho os olhos penso o que teria sido se tu tivesses ficado.
Talvez tenhas razão e sim, foi pelo melhor, eu estava a atrasar-te e tu a apressar-me; tu nunca serias totalmente feliz pelo acompanhamento e eu nunca seria inteiramente completa por não ter vivido os erros.
Não me sobra muito de ti, sobra-me a pequena caixa de brilhantes, vermelha como fico quando te vejo e é a recordação mais bonita que tenho; não era um anel, muito menos uma garantia de permanência, era sim um gesto de um amigo que não se esqueceu de mim.
Nunca te dei nada, recordo-me agora, mas sei que ficaste com a inocência, a vida e a alegria das noites dentro do carro a rir até à exaustão.
O que podia ter sido tudo, não foi nada e como costumam dizer é quando mudamos que podemos dar o devido valor ao que tínhamos; estava cansada de ti, dos teus segredos ao meu ouvido, ás tuas chamadas fora de horas, à tua presença constante na minha vida; sentia que precisava de liberdade, de poder escolher qual o caminho a seguir sem o teu olhar de (re)aprovação mas hoje acho que essa tua presença é uma falta constante na minha vida.
"Dá-me um cigarro" e fumávamos durante horas; o primeiro beijo foi mágico, nunca pensei que chegar até aquele dia. Como já disse, tu eras o inatingível, o impossível. Porque é que eu te haveria de ter? Por tantas vezes desisti até que te sentaste ao meu lado e, como se os astros se tivessem alinhado, ficámos até de manhã; até o sol sair pelas nuvens, e nos dizer olá num qualquer dia de Junho.
Acordar contigo, viver o dia contigo, dar-te a mão e sentir que o mundo podia realmente andar mais devagar foi uma sensação única.
Gostava de te abraçar outra vez, talvez a última e pedir-te desculpa entre dentes; talvez virasse as costas logo a seguir, talvez aguardasse pelo consentimento mas eu já avancei.
Dei a oportunidade que nunca te dei a ti; entreguei-me, como nunca me entreguei a ti. Acelerei como nunca acelerei por ti e se isto quer dizer que nunca gostei de ti então as palavras estão erradas porque o sentimento, por ser tão forte, nunca passou.
Foi-me pedido e ordenado que aprendesse a viver sem ti e eu vivi; dizem por aí que nunca se chega a lugar nenhum se deixámos o coração na paragem anterior; na verdade chega-se, chega-se a uma encruzilhada.
Assim, e sem ti, vou avançado sem qualquer certeza; como se não houvesse mês a seguir a este, vou aprendendo a lidar com a tua falta e com outra presença monótona.
Contigo não havia rotina, cada dia era inesperado; se hoje estávamos aqui, amanhã tu podias ter ido sem nunca mais voltar. Era constante a minha ânsia de ti. Esperava-te todos os dias e quando não te esperava, fazia questão de te ter na minha mente, com um riso alto e um sorriso irónico.
Não te posso ter de novo e também não te posso pedir que voltes; no fundo sei que seremos eternamente parte integrante um do outro e, quando olhas para mim na rua, à distância de um olá, eu sinto tudo como se fosse da primeira vez. São sentimentos diferentes, que acho nunca ter experimentado.
Cresço, e vou endireitando as costas e o pescoço como me dizias; tento intercalar a matemática com a sociologia, como aconselhas-te e vou perdendo pontos nesta confusão que te criei. Talvez haja uma luz no final de todas estas discussões e trocas de ideias, mas na verdade nem tu nem eu nos estamos a tornar mais novos.
Tentei, pela última vez, que abrisses os olhos e que visses que estaria aqui para ti, com o mesmo rabo de cavalo e olhar sonhador; fiquei sem palavras, sem formas de te fazer parar. Da última vez não fiquei bem mas fingi que sim e tu nunca voltaste para me dar a mão e foi aí, aqui, que soube que tu não tens intenção de perceber que isto não é mais um teste, um truque ou uma tentativa de saber em que ponto estamos. Eu sei bem em que pontos estamos; tu fazes a mesma vida de solteirão incurável, e eu uma romântica sem prescrição vou lutando por algo maior.
O que é que eu te poderia ter dito? O que é que eu poderia ter feito? Cada palavra ou gesto meu parece que piorou sempre a situação. Talvez tivesses tu que ter dito que sim, que ficavas... São escolhas, eu tentei que pelo menos restasse uma boa amizade. Resolvi-me, sem te perguntar, não me deixaste. E é hora de seguir... sem medos.
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