domingo, 10 de abril de 2016

Music

Ontem questionaram-me sobre o meu primeiro amor, como tinha esquecido e se realmente o coração não palpitava quando o via.
O meu primeiro amor é sempre uma história muito longa, porque o meu foi o único e até hoje não me lembro de sentir algo semelhante; passou muito tempo desde a primeira vez que cruzei o meu olhar com o dele. Recordo-me como se fosse hoje, uma noite qualquer, das primeiras da minha vida, um rapaz sem qualquer brilho embeleza o meu olhar quando se faz passar por meu acompanhante. Era um jogo que nós costumávamos ter para conseguirmos entrar na discoteca.
Passei muito tempo sem lhe dar muita importância, era muito nova e lembro-me de ser muito livre, senhora do meu nariz a correr no corta-mato.
Ele insistiu muito, entrou na minha vida, estacionou a nave e ficou foi se mantendo e eu fui gostando, fui me apaixonando. Costumam dizer que esses primeiros amores são imediatos mas no meu caso, eu não dava nada por ele.
Foi no verão que senti pela primeira vez o sabor da paixão e num piscar de olhos estava caída de amores; e assim me mantive por cinco longos anos.
Muita coisa mudou desde então, seguimos caminhos totalmente diferentes como já era de prever pois não tínhamos nem temos os mesmos ideais de vida.

Perguntaram-me se era justo perder tanto tempo com alguém (?!) e eu respondo, com muita certeza, que não foi de todo uma perda de tempo. Eu ganhei tempo com ele, conheci-me e especialmente conheci os limites do outro.
A verdade é que a memória tem uns truques engraçados, ela faz-nos querer que os tempos passados foram bons mas eu ainda guardo situações físicas de que nada foi perfeito, nem se aproximou de tal só que, ainda assim (expliquei eu) quando o vejo, apesar de não sentir borboletas nem palpitações, guardo-o no meu coração como uma pessoa muito especial que parecendo que não acompanhou todas as minhas fases, da inocência, à idade de saltar do armário, ás crises da idade adulta e nunca se queixou em demasia.
Eu também tolerei neuras, incapacidades, faltas de respeito mas eu acho que isso faz parte do primeiro amor... Porque esse primeiro amor não é para sempre, tem os dias contados, é a nossa rampa de lançamento e ai de nós se não o colocarmos num pedestal

"Não te arruinou a vida?" Claro que não. É capaz de ser um fantasma pelas situações menos boas que proporcionou, mas fez-me abrir os olhos e ser mais realista. Perceber que onde há fumo há fogo e que por vezes temos que conduzir de outra forma.
Se fechar os olhos consigo transportar-me para esses tempos, apesar de tudo era muito feliz e sei que o conheço como ninguém. Ainda hoje saberia como agir com ele.

Não resta qualquer tipo de sentimento e por isso o à vontade em falar sobre isto;  não me transtorna porque está cada um onde deve estar. Não tenho pena que não pudéssemos ter ficado amigos, porque não havia amizade por onde andar. Já tínhamos vivido tudo, já tínhamos partilhado e discutido tudo qualquer tipo de amizade iria fazer despoletar amores e ódios antigos. E não, não tenho pena de não lhe falar cada vez que o vejo, quando calhar solta-se um olá desgarrado mas quando a situação não o proporciona acho saudável que viremos o olhar para o lado. "E porquê?" perguntou ela, porque simplesmente não há nada a dizer. E tenho a certeza que ele se lembra de todos os momentos ao meu lado, que nunca se vai esquecer das longas conversas, dos abraços, da discussão acesa, da desconfiança, da partida e do adeus.

"E nunca mais amaste ninguém?", pergunta retórica com resposta curta, Nunca mais amei ninguém, mas também sei que nunca mais estive disponível a amar. Agora encontrei alguém que se parece comigo, apesar da sua visão crua da sociedade somos um casal engraçado mas, tanto quanto sei, o amor é uma construção.

"E foste feliz entretanto?" Claro que fui, tive uma segunda paixão onde senti muito pouco, era mais o companheirismo e as perspectivas de futuro que nos mantinham agarrados àquela certeza. Mais tarde, e como as projecções diriam, não havia futuro nenhum. Hoje estou numa terceira paixão, onde tenho cada vez menos certezas. Ainda assim, quero que os sonhos felizes se tornem realidade e sou hoje uma pessoa mais calma, com menos receio no caminho de uma resolução interior.

"Gostas dele?" Primeiramente é um grande amigo e faço o máximo para também ter esse papel na vida dele, o de uma grande amiga. Dou todos os conselhos que uma amiga devia dar, sem pensar em mim e no meu lugar no seu percurso pois aprendi que não somos nós que o escolhemos.
Mas gosto dele, gosto da sua companhia e principalmente do desafio pessoal em que ele se tornou. Mais do que isso será pura previsão a longo prazo cujos resultados correm o risco de serem pouco precisos por isso vou me deixando levar e a se a vida decidir mudar então apesar do sofrimento inicial já aprendi que é assim que tem de ser.
Na verdade, sinto que se começarmos a entrar na mesma sintonia que isto até pode ser uma cena a a valer, com direito a foguetes e tudo mas se entretanto ele mudar de faixa eu farei pouco para manter.

Não faças mais perguntas, digo eu, para terminar sou eu quem te diz que aprendi a ser eu própria.. A não mudar por ninguém e a ter os meus sempre perto de mim. Aprendi que não se deve ter pressa e que se tivermos calma tudo correrá bem. O bem é sempre um adjectivo, claramente, relativo. E não te preocupes, que essa do primeiro amor vai passar-te e não tarda já olhas para trás e ele é só uma parte da tua vida que, se não fores idiota, nunca vais apagar.


Sem comentários: